No último mês comemoramos o Dia Mundial da Saúde: momento propício para refletirmos sobre o futuro da medicina. Atuando como médico há 20 anos e como empresário no ramo da saúde há 16, a única certeza que tenho é que tudo está em constante transformação. A maneira de pensar em saúde tem mudado e ganhado novas formas, numa velocidade cada vez mais expressiva. O que me preocupa, no entanto, é a projeção de muitos mitos, discursos superficiais e um olhar restrito sobre perspectivas futuras. A parceria bem-sucedida entre medicina e tecnologia é uma realidade que tem quebrado paradigmas, no entanto, para a sociedade, suas contextualizações e reais benefícios ainda são latentes.
Recentemente, a mídia tem colocado em pauta a Telemedicina, surgindo na sociedade com certo assombro. Estudos sobre a Telemedicina são realizados desde a revolução tecnológica, que se deu no final dos anos 90, e avançou com a entrada da inteligência artificial. Como especialista em medicina diagnóstica, a inovação tecnológica sempre esteve presente na base da minha formação, uma obrigatoriedade enraizada em meus valores na busca constante das melhores práticas em Diagnóstico por Imagem. Profundas mudanças estão ainda por vir e a Telemedicina irá desempenhar um papel crucial nessa evolução do sistema de saúde, uma peça disruptiva não apenas no âmbito tecnológico, mas principalmente econômico e sociocultural.
A orientação via Telemedicina já é uma realidade no Brasil e no mundo, com alto índice de resolutividade, possibilitando um atendimento de qualidade e redução considerável das idas e vindas a diferentes laboratórios, o que evita desperdício de tempo e demora no diagnóstico. Entretanto, também é essencial que exista um intercâmbio assertivo de informações clínicas para o diagnóstico, tratamento e acompanhamento de pacientes a distância, sem reduzir a importância da relação médico-paciente. No Brasil, o serviço de emissão de laudos online está crescendo e se consolidando. Um dos pontos fortes do uso dessa prática é o atendimento a áreas remotas, sem a necessidade de um médico especialista em período integral. Na prática, o fornecimento de laudos online, a distância, permite que uma série de exames como Mamografia, Raios-X, Eletrocardiograma (ECG), Espirometria, Eletroencefalograma, e alguns exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética, entre outros, possam ser feitos pela equipe médica especializada. Através da tecnologia, o resultado é então enviado, via internet, para equipes médicas, compostas por especialistas habilitados a laudar, remotamente, exames em qualquer lugar do país ou do mundo. O avanço é tão significativo que, para casos emergenciais, é possível entregar laudos minutos após a emissão do exame.
Devemos também nos atentar para o fato de que a população está envelhecendo e com isso, surge a necessidade de gerenciar grandes quantidades de informações. Os avanços tecnológicos permitirão o aumento da capacidade de armazenar e processar um quantitativo maior de dados, favorecendo o cruzamento de informações e imagens captadas digitalmente, somadas ao histórico do paciente, que já estão armazenados de modo digital.
Percebo que quando falamos em Telemedicina, no imaginário coletivo, configura-se apenas a imagem de um médico na tela do computador conversando com o paciente. Esse olhar social para o futuro da medicina precisa ser ressignificado. A Telemedicina está inserida em um conceito mais amplo, conhecido mundialmente como eHealth* ou "saúde digital", que se traduz a qualquer aplicação da internet, utilizada por um conjunto de tecnologias de informações criadas para prover condições mais adequadas aos processos clínicos (*dados da HIMSS, Healthcare Information and Management Systems Society).
Tudo isso proporciona maior segurança, trazendo inúmeros benefícios para médicos e pacientes, com a definição de diagnósticos cada vez mais equiparados tecnologicamente e rápidos. Não existe uma análise definida de tudo o que vem por aí, mas aposto que a inovação, aliada a uma maior qualidade de dados visando mais precisão diagnóstica e foco na prevenção serão a base das aquisições no setor. Precisamos de organizações que olhem para o futuro e entendam a importância de investir em seu parque tecnológico e capacitação médica, com o objetivo de promover melhor qualidade de vida à população.
Por fim, gostaria de ressaltar que o maior investimento não é apenas o tecnológico, como também em pessoas. O avanço tecnológico demanda profissionais qualificados, ágeis e conectados com as novas práticas na saúde. Pensar em tecnologia sem agregar valor à mão de obra é inútil. O futuro da medicina precisa de pilares solidificados em equipes capacitadas e alinhadas aos novos processos tecnológicos. E, principalmente, uma medicina conectada a valores sustentáveis, a um olhar humanizado e assistencial. Profissionais digitalizando saúde e compartilhando mais amor ao próximo. Por essa razão é que podemos afirmar que, na era da tecnologia, o futuro da medicina nunca foi tão humano!
Dr. Libório Mule
CRM 6547
Presidente do Grupo LMULE
Membro Titular do Colégio Brasileiro de Radiologia, AMB/CFM.